quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ao mestre rimbaud




quisera correr de novo os verdes prados
que se abrem cheios de um mel risonho
quisera ir sem mais carregar nos braços
o inverossímil que faz abnegar o sonho

pelo amante tocara os finos dedos
em diversões tão fúteis quanto o absinto
ou por vezes fingira não ter medos
incutia-lhe a tenacidade o velho tinto

dentre penas e pernas criara tanto
o filamento tênue que envolve a loucura
correra, enfim, livre à céu e terra

e quanto mais lhe envelhecia a cura
mais convicto abdicava à pena:
encontrara no índico saudoso recanto.

o querer-te e querer-te mais

Incontentado

Quando em teus braços, meu amor te beijo
Se me torno de súbito tristonho
É porque as vezes com temor prevejo
Que esta alegria pode ser um sonho

Olho os meus olhos nos teus... Ponho 
Tremulo as mãos nas tuas mãos... e vejo 
Que és tu mesma que és tu! E ainda suponho
Ser enganado pelo meu desejo...

Quanto mais desvairado de ansiedade
De teu corpo meu corpo se avizinha
Mais de te, junto a te, sinto saudades...

E este suplicio atroz não se adivinha,
Quando beijando-te, o pavor me invade
De que em meus braços tu não sejas minha.

Martins Fontes


à menor presunção de outro enlace
me abrasa chama desesperadora
se me deixas, me causas um desastre
mas se ficas, me tens encantadora

às vezes esqueço a vil possibilidade
e a mim, me cobre nova atmosfera
vivo que és meu, e não vã metade
e nossa face se afigura mais sincera

ah, se soubesses o quanto me recrio
esqueço mesmo tudo que me consome
e mostro-me a ti fluente como um rio

como respeitando o peso do teu nome
e se hoje me demonstro por um fio
amanhã de sorrisos tenho fome.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

o causo do pescadô

ô seu doutô, eu tenho calo nos pé
   o muié
   cadê o almoço?
   é tanto arvoroço
do que eu nem sei que que é

ô seu político, eu tenho dor nos cotovelo
   ô carroceiro
   sou catador
   te cato as dor
que vem do dinheiro que leva o lixeiro

   ê gente boa, se tu vê de sorridência
gente pobre sofre
rico enche os cofre
   e diz que é pelas tal das ciência

   ê que eu não queria não, gentileza
sentí o sol
sê o anzol
   que pesca a o peixe da tua mesa

me jogaram no mundo
só sei que nasci:
   aonde, de quem, quando
nunca descobri
e nem fico procurando

posso encontrá coisa ruim
nasci, já me confromei:
   sei que hei de morrê assim.

sábado, 13 de outubro de 2012

passagem para a eternidade

sentir a retração de cada músculo do corpo
o arrepio ao comprido que parece não cessar
os olhos enchem de lágrimas, vão transbordar!

o corpo se derrete e se mistura à forma una
os olhos percebem, palavras interpretam o instante:

fotografia do universo eternizada na estante
um pedaço do coração de quem escreve o momento
se desprendendo para o mundo a cada letra escrita

de repente, o poema se mistura ao mistério da existência!

não é mais meu
fui só um veículo
que sentiu
e transmitiu

o poema já morava aqui!
...e há quem diga que não viu...


11/10/2012

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

amada flor



junção de tempo, paciência e expressão de amor
é a mais linda criação da natureza, amada flor
detentora de toda beleza da expressão solar
derrama suas pétalas de raio e vem me iluminar

jah bateu na minha porta quando te encontrei
disse pra mim em sonho e o sonho eu decorei
seu sorriso vem e enfeita a parede da memória
o amor que cresce muda toda a minha história

fruto das coisas mais lindas colhidas com apreço
dada pelas suas mãos que semearam o começo
e eu que me perdia acreditando me encontrar
descobri o que era lindo quando te vi irradiar

junção de tempo, paciência e expressão de amor
é a mais linda criação da natureza, amada flor
detentora de toda beleza da expressão solar
derrama suas pétalas de raio e vem me iluminar

então a chuva vem e purifica nosso infinito
só quero te dar o que houver de mais bonito
vamos levando a vida assim na boa vibração
que o que vier será presente de luz e gratidão

toca aquela música pra mim, enche tudo de amor
transbordo de alegria, e pra mim é eterna a flor
se morre a forma física, fica intacto o laço
encontrei a essência da paz em seu abraço

junção de tempo, poesia e expressão de amor
é a mais linda criação da natureza, amada flor ♥

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tecido Arte

Não tenho medo de viver da arte.
O que me causa medo é a sua consumação
Que consome minha ação
Que, em suma, é encantar-se

Medo me dão as saias da arte
E em quantas léguas de suas pregas hei de perder-me
E em quantas de suas anáguas hei de encontrar sentido
E em quantas de suas rendas hei de descosturar-me...
Desconstruir-me.
Construindo, assim, o dia, a noite, a verdade dos homens.

O que me causa pavor não são as belas artes
São, ainda, as artes cruas
Em que cada ato é um desensaio, um devaneio, uma ascensão

É como temor de sentir-se contemplado
Por contemplar tamanha beleza,
Que, nem os vértices dimensionais de espaço ou tempo
Ainda que espremidos e sugados
Possam contar do infinito dessa moça...

Ah, bela moça arte, arte moça, artimanha
Sinto-me uma presa
Perdida na beleza
Do seu tear de aranha...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

apenas um ponto

um ser que atrai a confluência de todas as energias transitantes
onde a absorção de toda convergência consome os instantes

a vulnerabilidade tem cheiro de carne fresca para quem disso se alimenta

esperança e força permeiam toda a extensão da confusão mental
não sei o que me move, nem pra onde, nem se é tudo natural

o ser biológico grita expressivamente externalizando a dor da abstinência

me agarro em mim na loucura febril que consome as madrugadas
sou minha própria salvação do ser que em mim fez sua morada

o ponto que oscila entre dois polos
o delírio que transpiro pelos poros