segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Presença de Araras

06/08

De pedra e nuvem. São feitos os sonhos
Profecia: De longe se tecem encontros
Seus dedos tocavam a força das aguas
E de saia de areia, a noite girava
Encanto paria a lua
Que em seus olhos se enchia
E aquilo que eu me lembrava
Trançava o que eu me esquecia
E em cada luzinha n'água...
A noite beijava a boca do dia


"Sereia cantou, e veio dançar
Trazia na saia as águas do mar..."

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

XLIII

me perguntavam sobre a minha força e eu só via a forca e o véu da ilusão. já de antemão digo que preciso, e só vivo se respiro de fato quem eu sou. mas de fato, aonde estou? eu acordo e amanheço a lua, mas mesmo bela e nua insisto em vestir. estranho. por que feliz me acanho e me fecho dentro de mim? tanta água nos meus olhos quer cair... tanto abraço que disfarço e o sorriso que não abro e as flores por colher... faz doer. peço a deus diariamente a cura para uma mente que costumava ver estrelas. se escolho erradamente é como quando planto as sementes e esqueço de colhe-las. não as colho para mim e fico com gosto assim, de vontade de viver. dou um salto no infinito e lembro que o mais bonito é viver sem perecer. meu espírito solto precisa de amor. amor, coragem e encanto. enxugo meu pranto, pego a caneta e derramo tinta.
e de forma distinta, ainda que calada, escrevo poesia pra cobrir a madrugada...

10/14

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

La loba

Uiva, vento, uiva
Uiva e canta um mistério para mim
Eu que tantas vezes permeio o fim...

Trancei meus cabelos com o fio da vida
Calcei meus pés com a força da rocha
No ventre trouxe a rosa
Das fêmeas esquecida...

Com as mãos teci os rios
Rogando, fio por fio
Para que Deus não esquecesse de nós
E com a mão que fiz, desfiz os nós

Do véu de ilusão que encobre a mulher
Da beleza perigosa que esconde a fé
Porque Deusas amanhecemos
E Deusas nos deitamos

Luz palpita no meu seio
Amuleto no meu peito
Se é pela lua que conhecemos
E por amor que recordamos.

Uiva, vento, uiva
Abençoadas estamos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

são chico




quando eu canto minha mente decanta
e a poesia se encanta do meu coração

são francisco de assis é quem pode me entender
se vivo infeliz e com gente não sei viver
é que carrego no meu dorso um amuleto animal
e me agarro com força na raiz do ancestral

quando eu canto minha mente decanta
e a poesia se encanta do meu coração

sinto falta de família e fico na vigília esperando salvação
mesmo uma desgarrada filha que não tem religião
eu trago a misericórdia e fui feita de compaixão
por isso que são chico é meu pai em oração

ah, por que não?...

se quando eu canto minha mente decanta
e a poesia se encanta do meu coração

se quando eu creio minha alma incendeia
e a chama clareia toda a escuridão.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

XLI

eu queria me lembrar do que sou feita. então ascendi terra. e da terra fez-se uma floresta encantada com uma rocha impenetravelmente protetora.
eu queria me lembrar do que sou feita. então afoguei-me nas minhas lágrimas contidas e lembrei que água é tudo aquilo que transborda o endógeno.
eu queria me lembrar do que sou feita. sei que essa frase feita parece consumir. mas nasci. nasci mineral e elemento, viva da natureza mãe que me criou. sou cria um tanto quanto aérea e dual na dança do horóscopo...
e fogo que arde, nada. esperava uma combustão de apenas quatro elementos, mas o fogo faz falta para aquecer um coração ancião...
olhei nas linhas da minha mão e teci um mapa que me leva até as linhas da minha corrente sanguínea, que me leva ao meu dna.
alguém teceu um código tão rico que hoje sou o que já fui desde o início dos tempos.
é carne o que me representa.
mas o espírito que ultimamente anda velho e cansado, orbita. orbita, permeia, perpassa e enlaça sutilezas nesta amada Terra. o espírito se deixa guiar os dedos para que se escreva (de acordo com nenhuma tradição poética) uma oração que se desprende de mim como redenção e alívio.
o quinto elemento que me compõe é isso. o indescritível. que é o elemento final que compõe todo esse espetáculo que diariamente acompanhamos. não saberemos. não aqui. não agora.
esta é a grande poesia.
me lembro de escrever apenas quando o coração fica tão pesado que é um movimento necessário de salvamento. escrever sobre o lamento parece imperar sobre a alegria.
mas carregando uma tormenta de noite e de dia, é que me lembro de escrever poesia.
nasce de mim a reza crua e cíclica, vem de água densa molhando a terra e no ar fica rarefeita.
ela também quer se lembrar do que foi feita.

terça-feira, 1 de julho de 2014

in flor-essência

a dor é uma fonte geradora.
avisto flores transparentes rodopiando gentilmente soltas ao vento
como a morte parece dizer sobre o véu da vida
como tempo impõe cada despedida
como resisto calada às intempéries de dentro
a dor é uma fonte geradora.

se ainda resta poesia, ela está em minha garganta
e entoa apenas mentalmente um velho mantra
cuja esperança pequenina ainda dança
de mãos dadas com as flores da vida, tão vívidas
de cores fluorescentes e pulsantes.

não é nem cinza porque cinza é cor e cor são olhos
- e olhos estão vivos -
é ainda um nada inominável onde tudo parece dar
vazio de tudo. não há.

um sonho de presença, segurança e amparo
- esse é de olhos fechados -
um sonho de outra existência
eu que da Terra conheci tantos mestres
com suas verdades num plano de fundo impecável

de folhas verdes como é verde o que nasce
e todos os seres vivos são marrons.
vida de formas diversas coexistindo em amor
bom dia, Deus!
que céu esplendoroso mais um dia...
- mais um dia -
ainda ando, falo e respiro
e o ar me envolve gentilmente os poros arrepiados

o que é isso, afinal?
eu nasci em palavras e nelas me expresso
e sempre fiz caber palavras em cada olhar atento
eu que agora me pego rendida
- não há mais o que dizer!
todas as palavras já foram ditas...
palavras são homens. Deus não tem idioma.

um sonho de dissociar-se desta realidade
suspensa pelas mãos divinas no manto eterno
ontem, hoje, amanhã, não quero
apenas ter o nada porque o nada é paz e há.
o nada impera sobre o tudo.
a dor é uma fonte geradora.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ruim

se eu morasse em mim
sua morada seria
e em mim você repousaria
e se agarraria ao tom carmim

se eu morasse em mim
seria algo fêmea
e não estrela efêmera
a oscilar assim

mas isso só se eu morasse em mim...

pegaria seus olhos de chama
e acenderia uma tocha
diria o que a alma reclama
da densidade da rocha

que te petrifica o fogo
e me purifica a água
eu entre um mar de mágoa
e o barco do repouso

"algo depura ou intoxica"
me lembro da fruta cítrica
morta sobre a bancada
teus olhos perdidos na sala...
toda aquela fumaça...
que constantemente me abraça
me despe e despedaça.

...e eu não me deixaria beirar o fim.
mas isso só se eu morasse dentro de mim.


12/05