Pelas vielas ambivalentes
Há aqueles que se contemplam
Ó meu Bom Jesus da Lapa
Empresta pouco da luminescência
Para que se encontrar
Numa janela dessas, cerrada
A antagônica que adormece
Dentre escárnios e carícias
No peito do seu credor.
Abre portas, imola casas
Diz no ínfimo dessa gente sórdida
Que as vielas das almas
Encontram-se demasiado ocupadas
Com as putrefações do ego.
Mostra as crianças raquíticas
Os cachorros abandonados ao relento
E os jovens atormentados.
Mas não te esquece do feminino,
Do roto no ventre, o pródigo tirado
Os vícios que declinam suas peles
O amor de seu corpo arrancado.
A mancha precoce do eco.
21/01/2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Apego
Falo de algo que flui,
Se desata, se deixa ir
São filosofias jogadas ao léu
Algo como observar o Relógio da Central
Marcando oito da noite
Seria um simples prédio
Se não fosse pai
Pai de quem vive dessa cidade
Seria apenas uma estrutura de concreto
Se não impusesse respeito.
Mais que o Cristo (que me perdoe)
Só quem passa por ali entende.
Ele é a vida no que há de morte
E de manhã é a morte
Por toda a vida.
meados de 2008.
Se desata, se deixa ir
São filosofias jogadas ao léu
Algo como observar o Relógio da Central
Marcando oito da noite
Seria um simples prédio
Se não fosse pai
Pai de quem vive dessa cidade
Seria apenas uma estrutura de concreto
Se não impusesse respeito.
Mais que o Cristo (que me perdoe)
Só quem passa por ali entende.
Ele é a vida no que há de morte
E de manhã é a morte
Por toda a vida.
meados de 2008.
Acordei, estava uma chuva cálida
Não havia frio, nem calor
Parece que esse tempo aflora o poeta
Como se o sol, pétala por pétala
O crucificasse e desfizesse flor
Procurei pela cama um lençol
De proteção
Lençol esse que me destrairia
Na manhã quente, na noite fria
Da minha imensa solidão.
Então me sentei, olhei ao redor
Da janela vi as árvores molhadas
Que me traziam estranha lembrança:
Eu era donzela, e sorria imaculada
Em meio a toda aquela dança.
final de 2008.
Não havia frio, nem calor
Parece que esse tempo aflora o poeta
Como se o sol, pétala por pétala
O crucificasse e desfizesse flor
Procurei pela cama um lençol
De proteção
Lençol esse que me destrairia
Na manhã quente, na noite fria
Da minha imensa solidão.
Então me sentei, olhei ao redor
Da janela vi as árvores molhadas
Que me traziam estranha lembrança:
Eu era donzela, e sorria imaculada
Em meio a toda aquela dança.
final de 2008.
sábado, 6 de novembro de 2010
A Grande Janela
Estava só no quarto.
Mas a observava chorar. Trazia nas omoplatas a curva beatitude dos velhos sábios. A escorriam pelas têmporas fios finos de cabelo, negros como noite sem luar. As mãos eram perfeitas. Algo como o fluido retilíneo do leite que banha os deuses no orvalho.
Mas tinha, principalmente no ventre, uma marca peculiar. Trazia no ventre recoberto o desespero de flor-de-liz, o rebento do que finda o feminino.
Os pés flutuavam, as curvas marcavam a tentação derradeira da carne.
Não achava ser assim. Dentro de seus olhos impetuosos e taciturnos era só o que podia ver. Via por dentro de si mesma. Abrira uma brecha na alma e procurava incessantemente um sentido para estar ali.
Via-se em uma vida de busca pelo credor, que, não ao acaso, era também o causador da tristeza que carregava desde antes de nascer.
Nada mais a importava. Perdera sua vida em uma certa ruela, na primavera, quando, no início da mocidade, conhecera o amor.
Via-se tristeza, mas esperança. E é exatamente isso que potencializa as dores e as torna cruéis. E mais que isso, nada.
Não pede-se sua crença, mas esse momento que é aqui descrito aconteceu em menos de um minuto. Era latente da carne o penoso peso da alma.
Apenas pude ter uma certeza: Era mais bonita do lado de dentro do espelho.
20/08/10
Mas a observava chorar. Trazia nas omoplatas a curva beatitude dos velhos sábios. A escorriam pelas têmporas fios finos de cabelo, negros como noite sem luar. As mãos eram perfeitas. Algo como o fluido retilíneo do leite que banha os deuses no orvalho.
Mas tinha, principalmente no ventre, uma marca peculiar. Trazia no ventre recoberto o desespero de flor-de-liz, o rebento do que finda o feminino.
Os pés flutuavam, as curvas marcavam a tentação derradeira da carne.
Não achava ser assim. Dentro de seus olhos impetuosos e taciturnos era só o que podia ver. Via por dentro de si mesma. Abrira uma brecha na alma e procurava incessantemente um sentido para estar ali.
Via-se em uma vida de busca pelo credor, que, não ao acaso, era também o causador da tristeza que carregava desde antes de nascer.
Nada mais a importava. Perdera sua vida em uma certa ruela, na primavera, quando, no início da mocidade, conhecera o amor.
Via-se tristeza, mas esperança. E é exatamente isso que potencializa as dores e as torna cruéis. E mais que isso, nada.
Não pede-se sua crença, mas esse momento que é aqui descrito aconteceu em menos de um minuto. Era latente da carne o penoso peso da alma.
Apenas pude ter uma certeza: Era mais bonita do lado de dentro do espelho.
20/08/10
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Lá em casa eu sou rainha
E cuido da vida só minha
Pra não ter de me lembrar
Que além de mim, há o outro
Que não me deixa nem um pouco
Sair pra vadiar
Ah, quem me dera liberdade
Mas aqui nessa cidade,
Estado, país, continente
Não há um que seja livre
Um que seja diferente
Quero andar pelado
Correr de lado
No meio da Estação Central
Quero vinho e poesia
Me embebedar de melancolia
Em pleno Carnaval
E no natal,
Hei de comemorar Vinícius
E esquecer os personagens fictícios
Não há virtudes e nem vícios
Na minha vida real.
14/06/10
E cuido da vida só minha
Pra não ter de me lembrar
Que além de mim, há o outro
Que não me deixa nem um pouco
Sair pra vadiar
Ah, quem me dera liberdade
Mas aqui nessa cidade,
Estado, país, continente
Não há um que seja livre
Um que seja diferente
Quero andar pelado
Correr de lado
No meio da Estação Central
Quero vinho e poesia
Me embebedar de melancolia
Em pleno Carnaval
E no natal,
Hei de comemorar Vinícius
E esquecer os personagens fictícios
Não há virtudes e nem vícios
Na minha vida real.
14/06/10
O Poeta Diante do Efêmero
O poeta está triste, triste
Perdeu a musa, sua amada
E pensando n'outra que o conquiste
Foi buscar outra namorada
Foi num show, nada achou
No teatro, só boato
No ballet, quanta mulher!
E parado no banco da praça
Mirou o chão desolado
De tão sem graça
Nem olhou do seu lado
Ao contrário, ouviu o chamado!
A cigarra cantava suas dores de amor
Mas que favor!
Ver-se-há a paixão dela pela formiga
E vejam só como é a vida
Ela entendeu que a musa partiu
E num gesto tão gentil
Fez canção pra todo o povo
Fez o poeta: pegou o violão
E saiu por aí vociferando paixão.
(Mas cuidado poeta!
Pois a mesma cigarra não canta de novo).
15/05/10
Perdeu a musa, sua amada
E pensando n'outra que o conquiste
Foi buscar outra namorada
Foi num show, nada achou
No teatro, só boato
No ballet, quanta mulher!
E parado no banco da praça
Mirou o chão desolado
De tão sem graça
Nem olhou do seu lado
Ao contrário, ouviu o chamado!
A cigarra cantava suas dores de amor
Mas que favor!
Ver-se-há a paixão dela pela formiga
E vejam só como é a vida
Ela entendeu que a musa partiu
E num gesto tão gentil
Fez canção pra todo o povo
Fez o poeta: pegou o violão
E saiu por aí vociferando paixão.
(Mas cuidado poeta!
Pois a mesma cigarra não canta de novo).
15/05/10
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Eterno e Embriagado
Hoje o dia amanheceu lindo
Vi seu rosto na janela
Ou meu rosto no espelho
Quisera eu ter a força necessária
Para superar a sua imagem
Que é tão intimamente minha...
Quisera eu acordar em dias assim
E ter-me em minha própria palma:
Sair sem te levar na alma.
A prisão de incapacidade
Diante do mundo que carrego
Reflete em mim o seu estrago
Não sou mais nada.
Morri, por dentre algum samba
Que você não estava.
18/10/10
Vi seu rosto na janela
Ou meu rosto no espelho
Quisera eu ter a força necessária
Para superar a sua imagem
Que é tão intimamente minha...
Quisera eu acordar em dias assim
E ter-me em minha própria palma:
Sair sem te levar na alma.
A prisão de incapacidade
Diante do mundo que carrego
Reflete em mim o seu estrago
Não sou mais nada.
Morri, por dentre algum samba
Que você não estava.
18/10/10
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