terça-feira, 1 de julho de 2014

in flor-essência

a dor é uma fonte geradora.
avisto flores transparentes rodopiando gentilmente soltas ao vento
como a morte parece dizer sobre o véu da vida
como tempo impõe cada despedida
como resisto calada às intempéries de dentro
a dor é uma fonte geradora.

se ainda resta poesia, ela está em minha garganta
e entoa apenas mentalmente um velho mantra
cuja esperança pequenina ainda dança
de mãos dadas com as flores da vida, tão vívidas
de cores fluorescentes e pulsantes.

não é nem cinza porque cinza é cor e cor são olhos
- e olhos estão vivos -
é ainda um nada inominável onde tudo parece dar
vazio de tudo. não há.

um sonho de presença, segurança e amparo
- esse é de olhos fechados -
um sonho de outra existência
eu que da Terra conheci tantos mestres
com suas verdades num plano de fundo impecável

de folhas verdes como é verde o que nasce
e todos os seres vivos são marrons.
vida de formas diversas coexistindo em amor
bom dia, Deus!
que céu esplendoroso mais um dia...
- mais um dia -
ainda ando, falo e respiro
e o ar me envolve gentilmente os poros arrepiados

o que é isso, afinal?
eu nasci em palavras e nelas me expresso
e sempre fiz caber palavras em cada olhar atento
eu que agora me pego rendida
- não há mais o que dizer!
todas as palavras já foram ditas...
palavras são homens. Deus não tem idioma.

um sonho de dissociar-se desta realidade
suspensa pelas mãos divinas no manto eterno
ontem, hoje, amanhã, não quero
apenas ter o nada porque o nada é paz e há.
o nada impera sobre o tudo.
a dor é uma fonte geradora.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ruim

se eu morasse em mim
sua morada seria
e em mim você repousaria
e se agarraria ao tom carmim

se eu morasse em mim
seria algo fêmea
e não estrela efêmera
a oscilar assim

mas isso só se eu morasse em mim...

pegaria seus olhos de chama
e acenderia uma tocha
diria o que a alma reclama
da densidade da rocha

que te petrifica o fogo
e me purifica a água
eu entre um mar de mágoa
e o barco do repouso

"algo depura ou intoxica"
me lembro da fruta cítrica
morta sobre a bancada
teus olhos perdidos na sala...
toda aquela fumaça...
que constantemente me abraça
me despe e despedaça.

...e eu não me deixaria beirar o fim.
mas isso só se eu morasse dentro de mim.


12/05

sábado, 19 de abril de 2014

XXXIX

rir com ele... por que não...?
parece haver uma barreira intransponível entre dois mundos que ela também não sabia se queria misturar.
as escolhas carregam um peso bruto total.
e nessa escolha não cabia mais nada além da enebriante fumaça densa de uma tonelada por metro cúbico.
de que valem dois olhos de incêndio?
ela estava enebriada pela fumaça.
até a lua era cheia e vermelha, mas nela tudo míngua.
um sonho de pessoas desconhecidas que se amavam. se amar é tão deus.
ela mantinha-se de pé no inferno.
e nem o inverno faria o outono, o karma, o sangue, o carmim cessar.
porém, se ela fica, morre.
morre dos botões de flores que não ve, ou de não dormir envolta nos véus de estrelas e no grande manto do divino,
e da ausência do riso...
aquele que suspende a névoa no espaço e encanta o entrelace dos dedos que as almas que caminham juntas precisam se dar.
alaranja
e cai.


15/04/14

terça-feira, 18 de março de 2014

MAP

today i have to say
tudo que  passei
que ceguei, que calei
my body on the way

Médio, morno e animal
Ando louco e amoral
Procuro o espiritual

a map doesn't tell it all...

une carte por moi would tell
something like un amplificateur

A ordem é trocada
Mas a palavra preservada
Por ser assim, sagrada

e eu, tão de mim abandonada

dios, a ti me quedo sin razón
je ne sais pas faire une chanson
of love in its true dimension

sé que me muero por las noches frías
e acordo viva quando nasce o dia.

uno, dos, trois
hei de tentar.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

XXXVII

olhei seus olhos de buraco negro.
amor desprendido aprisiona.
eu me joguei para nadar no escuro dos seus olhos
através da transparência daquele cristal.
qual é o mistério que tu guardas?

...
- silêncio -
...


12/02/2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

XXXV

ela e o sonho contemplavam o céu.
e o mundo só já era pouco. todo o universo e o que há além pesavam-lhe as pálpebras e o sono não vinha.
"por que há consciência se não podemos saber?"
ela queria saber.

"o ser humano perdeu, em algum momento, a conexão telepático-transcendental com tudo que existe, mas eu não escolhi assim" - ela pensava.
sofria porque todos os demais seres eram canais do infinito, sofria porque todas as coisas eram interligadas e formavam uma unidade da qual ela se sentia pulsantemente participante.
e por isso, acima de tudo, sofria
ela não escolhera ser humana.


24/01/2014

XXXIII

- os elementos agrupam-se, contraem-se, expandem-se diferentemente e formam tudo que existe. cada criatura é absolutamente única.
o professor falava. ela gostava de ouvir essas explicações.
um dia respirou fundo e perguntou:
- e o que sobra quando tudo acaba?
todos calaram.
ela sabia.

"estamos numa condição dinâmica"
foi o que guardou.


24/01/2014