sábado, 19 de abril de 2014

XXXIX

rir com ele... por que não...?
parece haver uma barreira intransponível entre dois mundos que ela também não sabia se queria misturar.
as escolhas carregam um peso bruto total.
e nessa escolha não cabia mais nada além da enebriante fumaça densa de uma tonelada por metro cúbico.
de que valem dois olhos de incêndio?
ela estava enebriada pela fumaça.
até a lua era cheia e vermelha, mas nela tudo míngua.
um sonho de pessoas desconhecidas que se amavam. se amar é tão deus.
ela mantinha-se de pé no inferno.
e nem o inverno faria o outono, o karma, o sangue, o carmim cessar.
porém, se ela fica, morre.
morre dos botões de flores que não ve, ou de não dormir envolta nos véus de estrelas e no grande manto do divino,
e da ausência do riso...
aquele que suspende a névoa no espaço e encanta o entrelace dos dedos que as almas que caminham juntas precisam se dar.
alaranja
e cai.


15/04/14

terça-feira, 18 de março de 2014

MAP

today i have to say
tudo que  passei
que ceguei, que calei
my body on the way

Médio, morno e animal
Ando louco e amoral
Procuro o espiritual

a map doesn't tell it all...

une carte por moi would tell
something like un amplificateur

A ordem é trocada
Mas a palavra preservada
Por ser assim, sagrada

e eu, tão de mim abandonada

dios, a ti me quedo sin razón
je ne sais pas faire une chanson
of love in its true dimension

sé que me muero por las noches frías
e acordo viva quando nasce o dia.

uno, dos, trois
hei de tentar.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

XXXVII

olhei seus olhos de buraco negro.
amor desprendido aprisiona.
eu me joguei para nadar no escuro dos seus olhos
através da transparência daquele cristal.
qual é o mistério que tu guardas?

...
- silêncio -
...


12/02/2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

XXXV

ela e o sonho contemplavam o céu.
e o mundo só já era pouco. todo o universo e o que há além pesavam-lhe as pálpebras e o sono não vinha.
"por que há consciência se não podemos saber?"
ela queria saber.

"o ser humano perdeu, em algum momento, a conexão telepático-transcendental com tudo que existe, mas eu não escolhi assim" - ela pensava.
sofria porque todos os demais seres eram canais do infinito, sofria porque todas as coisas eram interligadas e formavam uma unidade da qual ela se sentia pulsantemente participante.
e por isso, acima de tudo, sofria
ela não escolhera ser humana.


24/01/2014

XXXIII

- os elementos agrupam-se, contraem-se, expandem-se diferentemente e formam tudo que existe. cada criatura é absolutamente única.
o professor falava. ela gostava de ouvir essas explicações.
um dia respirou fundo e perguntou:
- e o que sobra quando tudo acaba?
todos calaram.
ela sabia.

"estamos numa condição dinâmica"
foi o que guardou.


24/01/2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

equilíbrio

paira a energia criadora, cuja força motora
desce em forma de mulher.
ela é.
azul cintila seu corpo no infinito
do reflexo mais bonito
o nu como se é.

reza a lenda que o cosmos, enamorado
deu a ela um recado
para não se esquecer:
- eu te fecundo em verde ancestral
e te será natural
parir para viver.
te darei leis, o leste, o oeste, o norte e o sul
mas também a água azul
para te cobrir.
será teu manto, meu encanto, sua casa
e apagará a brasa
que tentar te destruir.
teu nome é gaia, minha musa em esfera
e na tua atmosfera
tudo passa a existir.
o último sopro é um ar de nada denso
que te mostrará o tempo
o passado e o porvir.
para que não fiques tão sozinha
te darei em companhia
um casal amigo meu:
a moça é bela e há de se chamar lua
pois também está nua
e é mãe como você.
separei-a do seu par, o grande sol
mas tudo foi em prol
do dia anoitecer.
e dentre os mais incríveis animais
um há de se destacar mais
pois tem algo a aprender.
e é aí que entra teu sacrifício
pois ele fará o ofício
de destruir para criar
e o bicho homem contemplará o céu
mas escolherá manter o véu
que o impede de enxergar.
para enfeitar te empresto as estrelas
tua perfeita natureza
poderosa e onipotente
e ao homem darei uma realidade
que ele julgará verdade
da "mente consciente"
e há de clamar a mim quando doer
mas um dia há de aprender
a também equilibrar.
e assim também não fico tão sozinho
ao contemplar o homenzinho
a me contemplar.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

dilata

a cara e a vidraça
a carne e a couraça
me encorajam de novo a ser mulher

do busto me arranco
e rebusco nos flancos
o poder de vestir a face que quiser

hoje a noite é de lua nova
quando o cosmos põe à prova
a força da loba que caça

só merece a lua cheia
o corpo que se incendeia
com o fogo que arde e mata.