Sinto saudade de você. Todos os dias. Clichê começar qualquer coisa que seja esse escrito assim?
Demais.
Me acostumei ao amor não romântico.
E quem dera eu estivesse falando sobre o modus operandi mantenedor das opressões.
Me acostumei a amar não romanticamente.
Ao toque da pele não dar choque.
Ao olhar só conseguir vaguear pelo outro dormindo durante fortuitos segundos.
E não aquela oração que eu fazia quando você dormia.
Eu orava a todos os deuses e entidades que conhecia em puro nirvana.
Sem palavras eu agradecia, pedia, contemplava, imantava, partilhava, era vida.
Eu me acostumei (e essa parte é de moer) a abraços vazios. Toques sem aquele sentido suprahumano que tinham contigo.
A maior viagem disso tudo, curiosamente, é uma constatação que provavelmente você nunca tenha se sentido assim comigo.
Engraçado.
Romances não ensinam que é possível amar visceralmente
sozinho.
Eu te amei visceralmente. Quantos erros cometi por isso.
Quantas vezes fui odiosa e hostil, manipuladora, infantil e cruel.
Olhando pra trás e para frente penso que seria impossível não só não ter sido como vir a ser algo que não isso.
Sua natureza era muito distinta da minha. E você teve seus odiosos erros também.
Sabia que eu carrego o peso deles até hoje?
A maior coisa que você poderia ter materializado na minha consciência hoje tem o peso de uma montanha.
Certa vez você disse:
“Você não sabe ser feliz”.
E essa sentença foi muito mais do que ortográfica.
Eu convivo com a incapacidade de ser feliz todos os dias.
O que mudou?
Antes eu tinha fé. Hoje nem isso me sobra.
Sabe as músicas, os filmes, os passeios de bici? As séries, os animais e todo esse clichê de comédia romântica?
Parece tão longe...
Tudo parece tão impossível de ter acontecido hoje.
Como calhamos de ficar juntos?
Foi minha obsessão?
Eu fui sempre um ser previsível e patético que podou nosso fruto e por isso você tinha culpa?
Ou isso é só mais uma das minhas muitas paranóias que tanto te adoeceram?
Será que você já me amou um dia?
Como dói pensar nisso...
Minhas mãos de vez em quando ainda pingam sangue da força que fiz para segurar o elo que nos unia.
Eu não queria ter sido uma referência traumática pra você.
Assim como não queria que você tivesse sido pra mim.
Eu lembro de sermos tão potentes e maravilhosos juntos, tão incrivelmente puros com nossas almas dançando vestindo colorido...
E também de tantos demônios.
Eu queria te pedir perdão mas não sei se devo, tudo é um coquetel tão misturado na minha memória que não consigo discernir muita coisa.
Só a saudade.
Amores impossíveis têm motivos menos densos e complexos normalmente.
Não queria que isso virasse um capítulo de “cartas não mandadas”, mas o não dizer dessas palavras direcionadas a você é muito pior do que dor física.
E nem que sejam direcionadas a você,
na verdade sonho que elas pudessem atingir sua alma.
E que nada fosse feito após que não um sentimento interno.
Não desejo alimentar o monstro da esperança dos amores impossíveis, isso pra mim está posto.
Só queria voltar a sentir qualquer coisa que fosse menos mortificante que a morte da alma em si.
Se fomos canais, portais, janelas, ou frestas que seja, que seu sorriso doce esteja agora encantando crianças e que seu abraço mágico esteja sendo abrigo para animais da rua...
Que sua alma leve e flutuante e no entanto pesada e obscura como poucas esteja realizando sonhos condizentes com a complexidade do seu ser.
Que o caminhar possa doer menos.
Que você tenha flertado mais de uma vez com a felicidade que nunca pude te dar.
domingo, 26 de janeiro de 2020
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
serena
prendi a respiração
para mergulhar
profundo
e de olhos fechados
criava mundos
batendo braço
batendo perna
e o cansaço
e eu lutando
e me debatendo
superfície longínqua
olhos fechados
e o ar faltando...
tinha mais medo
do oceano
do que da morte
tinha mais medo
das feras abissais
do que da morte
e o ar faltando...
e a água vindo
e a queimadura
debaixo d'água
coisa engraçada
sentir queimando
e batendo braço
e batendo perna
e os olhos fechados
e o susto vinha
e ia embora
até que o futuro virou
sonho
e a água vindo
a água entrando
serena braço
serena perna
e os olhos
eternamente abertos
[04/12/19]
para mergulhar
profundo
e de olhos fechados
criava mundos
batendo braço
batendo perna
e o cansaço
e eu lutando
e me debatendo
superfície longínqua
olhos fechados
e o ar faltando...
tinha mais medo
do oceano
do que da morte
tinha mais medo
das feras abissais
do que da morte
e o ar faltando...
e a água vindo
e a queimadura
debaixo d'água
coisa engraçada
sentir queimando
e batendo braço
e batendo perna
e os olhos fechados
e o susto vinha
e ia embora
até que o futuro virou
sonho
e a água vindo
a água entrando
serena braço
serena perna
e os olhos
eternamente abertos
[04/12/19]
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
necrofagia
a dor desanda
descompassa
desequilibra
a dor desanda
o peso nas ancas
a face ferida
a dor fustiga
a dor, semente
cresce rapidamente
destrói minha casa
enraiza o chão
onde eu plantava
a dor gigante
maior que um prédio
de dez andares
é a dor criança
grita os pesares
buscando um nexo
hora menina
hora moça
hora senhora
a dor faminta
tem muita força
consome o agora
e a poesia, coitada
jogada em escanteio
são só folhas rasgadas
alguns símbolos no meio
testemunhando
a dor mortal:
ontem morri sonhando
hoje comi meu cadáver matinal
descompassa
desequilibra
a dor desanda
o peso nas ancas
a face ferida
a dor fustiga
a dor, semente
cresce rapidamente
destrói minha casa
enraiza o chão
onde eu plantava
a dor gigante
maior que um prédio
de dez andares
é a dor criança
grita os pesares
buscando um nexo
hora menina
hora moça
hora senhora
a dor faminta
tem muita força
consome o agora
e a poesia, coitada
jogada em escanteio
são só folhas rasgadas
alguns símbolos no meio
testemunhando
a dor mortal:
ontem morri sonhando
hoje comi meu cadáver matinal
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Dia 317
É ironicamente o dia 317 desse futuro insólito.
As mechas dos seus cabelos ainda se apresentam vívidas em minha imaginação.
Não houve se quer um dia em que fui dormir sem imaginar que você ainda estava ao meu lado.
Perdi o talento para amar e perdi o talento para a poesia.
Sua imagem acústica em minha memória é um constante atracar de ondas ígneas num porto frágil.
O futuro, de um púrpura neon, encontra-se irremediavelmente adormecido ou magicamente morto.
Eu estou no futuro.
Estou no futuro.
Sem o imantar da sua pele castanha encostada na minha.
Sem nossos tons se misturarem numa nuance intima.
Quando fui embora, sabia que estava atropelando o tempo.
E que o preço do contrato era o nunca.
O nunca mais convive nas roupas que não mais me servem, nas rugas adquiridas, no silêncio conquistado.
O nunca mais convive no pulsar acelerado das minhas veias saltadas.
Na solidão noturna (mesmo acompanhada).
Nas vagarosas horas de trabalho.
Do nunca mais eu já sabia. Só não poderia ter premeditado o peso do silêncio.
E como não ouvir a sua voz de repente se tornou um pesadelo anunciado.
Eu lembro dos dias de sol na grama com os cães em festa
E parece que sonhei.
Será que eu sonhei?
Por que agora, passado quase um ciclo inteiro, me vêm as memórias doces?
É a primeira vez que te escrevo desde então.
Eras minha maior e mais profunda certeza.
É duro caminhar por esse mundo sem certezas.
Tu tiveste o último resquício da minha meninice.
Acredito que tenhas visto o último lampejo de brilho nos meus olhos.
E aquela última possibilidade de errar.
Acredito que tenha te proferido meu último sorriso apaixonado.
Minhas últimas horas em contemplação grata por ter-lhe ao meu lado.
Meus últimos sonhos.
Eras minha maior e mais profunda tristeza.
A maior e mais profunda verdade.
Hoje vivo fisicamente no futuro.
E o pensamento ainda te jura amor eterno com as mãos sujas de amora.
Tua memória aproxima os monstros e demônios da morte.
Tua memória recorda às minhas células que já fui vida.
As mechas dos seus cabelos ainda se apresentam vívidas em minha imaginação.
Não houve se quer um dia em que fui dormir sem imaginar que você ainda estava ao meu lado.
Perdi o talento para amar e perdi o talento para a poesia.
Sua imagem acústica em minha memória é um constante atracar de ondas ígneas num porto frágil.
O futuro, de um púrpura neon, encontra-se irremediavelmente adormecido ou magicamente morto.
Eu estou no futuro.
Estou no futuro.
Sem o imantar da sua pele castanha encostada na minha.
Sem nossos tons se misturarem numa nuance intima.
Quando fui embora, sabia que estava atropelando o tempo.
E que o preço do contrato era o nunca.
O nunca mais convive nas roupas que não mais me servem, nas rugas adquiridas, no silêncio conquistado.
O nunca mais convive no pulsar acelerado das minhas veias saltadas.
Na solidão noturna (mesmo acompanhada).
Nas vagarosas horas de trabalho.
Do nunca mais eu já sabia. Só não poderia ter premeditado o peso do silêncio.
E como não ouvir a sua voz de repente se tornou um pesadelo anunciado.
Eu lembro dos dias de sol na grama com os cães em festa
E parece que sonhei.
Será que eu sonhei?
Por que agora, passado quase um ciclo inteiro, me vêm as memórias doces?
É a primeira vez que te escrevo desde então.
Eras minha maior e mais profunda certeza.
É duro caminhar por esse mundo sem certezas.
Tu tiveste o último resquício da minha meninice.
Acredito que tenhas visto o último lampejo de brilho nos meus olhos.
E aquela última possibilidade de errar.
Acredito que tenha te proferido meu último sorriso apaixonado.
Minhas últimas horas em contemplação grata por ter-lhe ao meu lado.
Meus últimos sonhos.
Eras minha maior e mais profunda tristeza.
A maior e mais profunda verdade.
Hoje vivo fisicamente no futuro.
E o pensamento ainda te jura amor eterno com as mãos sujas de amora.
Tua memória aproxima os monstros e demônios da morte.
Tua memória recorda às minhas células que já fui vida.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Medida Cautelar
Piso com a veemência de quem tem um compromisso urgente
Caminho pelo Passeio com a determinação de um burocrata
Creio ter ganhado até algumas rugas na testa...
A vida adulta me cobra que eu enfim seja gente
Mas tem uma parte em que preciso ser mais sensata
É na certeza profunda que viver de amor já não presta...
Pra isso não existe receita infalível
É preciso um relógio que conte os segundos
É preciso não ler romances profundos
E é mesmo preciso abstrair-se do sensível
Talvez seja monótono só confiar no factível
Mas torna-se estritamente necessário
Escrever poesias se torna quase impossível
E o vinho, um ferrenho adversário
Logo eu, tão dada às vãs divagações
Das horas de languidez apaixonada
Me vejo matando o ócio em proporções
De uma frieza quase que desesperada
A paixão levou-me os cabelos,
A rigidez dos músculos e seios
Introjetou meia tonelada de medos
Começou me comendo pelos dedos
Para depois me regurgitar apavorada
Mas a paixão não começa pelas beiradas
Graficamente uma flor brutalmente deflorada
Por seu caráter sorrateiro
Deve ser duramente combatida:
Declaro meu amor primeiro!
Com a certeza de só ter essa vida
Chega de experimentos mal sucedidos
Recebendo migalhas e traumas em troca
Nunca mais entorpecer os sentidos
É o preço que a mão do tempo provoca
Se ontem amei intensa e profundamente
Hoje me tenho quase que literalmente vacinada:
Não espero mais nada de nenhum tipo de gente
E do amor é que certamente não espero nada!
Caminho pelo Passeio com a determinação de um burocrata
Creio ter ganhado até algumas rugas na testa...
A vida adulta me cobra que eu enfim seja gente
Mas tem uma parte em que preciso ser mais sensata
É na certeza profunda que viver de amor já não presta...
Pra isso não existe receita infalível
É preciso um relógio que conte os segundos
É preciso não ler romances profundos
E é mesmo preciso abstrair-se do sensível
Talvez seja monótono só confiar no factível
Mas torna-se estritamente necessário
Escrever poesias se torna quase impossível
E o vinho, um ferrenho adversário
Logo eu, tão dada às vãs divagações
Das horas de languidez apaixonada
Me vejo matando o ócio em proporções
De uma frieza quase que desesperada
A paixão levou-me os cabelos,
A rigidez dos músculos e seios
Introjetou meia tonelada de medos
Começou me comendo pelos dedos
Para depois me regurgitar apavorada
Mas a paixão não começa pelas beiradas
Graficamente uma flor brutalmente deflorada
Por seu caráter sorrateiro
Deve ser duramente combatida:
Declaro meu amor primeiro!
Com a certeza de só ter essa vida
Chega de experimentos mal sucedidos
Recebendo migalhas e traumas em troca
Nunca mais entorpecer os sentidos
É o preço que a mão do tempo provoca
Se ontem amei intensa e profundamente
Hoje me tenho quase que literalmente vacinada:
Não espero mais nada de nenhum tipo de gente
E do amor é que certamente não espero nada!
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Vida
Insossa.
Não pode ter gosto de mais nada.
Não é vazia porque pesa
É líquida porque vaza
Ácida porque rasga
Pior que água salobra
Porque realiza a obra
Da infinda tragédia.
Do tempo não espera trégua
Do músculo não teme a mácula
Tampouco a compadece a reza.
É flamejante em sua frieza
Encontra gozo ante a sátira
Ah, sagaz e rápida
Fortuita, desajeitada, lasciva...
E antes que se diga: - viva!
Precede o misterioso cálculo
E, inebriada pelo ópio
Finda seu espetáculo.
Não pode ter gosto de mais nada.
Não é vazia porque pesa
É líquida porque vaza
Ácida porque rasga
Pior que água salobra
Porque realiza a obra
Da infinda tragédia.
Do tempo não espera trégua
Do músculo não teme a mácula
Tampouco a compadece a reza.
É flamejante em sua frieza
Encontra gozo ante a sátira
Ah, sagaz e rápida
Fortuita, desajeitada, lasciva...
E antes que se diga: - viva!
Precede o misterioso cálculo
E, inebriada pelo ópio
Finda seu espetáculo.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
193. caminhante do céu espectral vermelho
não pensei necessariamente sobre você
sobre o mistério que envolve te adentrar
não tem nada a ver com as suas preferências
o jeito que você acorda de manhã
o que te faz tremer de medo em silêncio
é muito mais sobre mim
se escrevo poesias românticas
é sobre mim
se bebo da água até sugar a fonte
e mudo meu destino nômade
é muito mais sobre mim
meu descontentamento
minha estafa
meu solo árido e estéril
o gosto ocre do meu sangue
você, vocês, seus ciclos
de começar um dentro do outro
são fragmentos partidos do meu espelho
eternamente vagante
que desacreditado de crenças
acredita em todas elas
"Dissolvo com o fim de explorar
Libertando a vigilância
Selo a saída do espaço
Com o tom Espectral da liberação
Eu sou guiado pelo meu próprio poder duplicado
sobre o mistério que envolve te adentrar
não tem nada a ver com as suas preferências
o jeito que você acorda de manhã
o que te faz tremer de medo em silêncio
é muito mais sobre mim
se escrevo poesias românticas
é sobre mim
se bebo da água até sugar a fonte
e mudo meu destino nômade
é muito mais sobre mim
meu descontentamento
minha estafa
meu solo árido e estéril
o gosto ocre do meu sangue
você, vocês, seus ciclos
de começar um dentro do outro
são fragmentos partidos do meu espelho
eternamente vagante
que desacreditado de crenças
acredita em todas elas
"Dissolvo com o fim de explorar
Libertando a vigilância
Selo a saída do espaço
Com o tom Espectral da liberação
Eu sou guiado pelo meu próprio poder duplicado
“Equilibro-me, desapego-me e a abundância cresce em mim liberando um caminho para o céu.”"
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